"Idéia para uma história. Homem chega num carro com motorista a uma cidadezinha do interior. Manda estacionar o carro na única praça da cidadezinha, em frente à única igreja, e diz para o motorista ficar esperando no carro enquanto ele inspeciona a cidadezinha a pé. Não leva muito tempo. A cidadezinha é quase nada. A praça, a igreja, a prefeitura, algumas casas em volta da praça, poucas ruas. O prédio mais alto da cidadezinha tem quatro andares. É o que fica em cima da maior loja da cidade, a Ferreira e Filhos, que vende de tudo.
O homem entra no único boteco da praça, pede uma cerveja e puxa conversa.
Quer saber quem é que manda na cidadezinha. Há quatro ou cinco pessoas no boteco, que não pararam de observar os movimentos do homem desde que ele desceu do seu carro com motorista. O maior carro que qualquer uma delas jamais tinha visto. Ninguém fala.
O homem repete a pergunta. Quem é que manda na cidadezinha? As pessoas se entreolham. Finalmente o dono do boteco responde.
— O prefeito é o dr. Al…
— Não, não. Não perguntei o prefeito. O que manda mesmo. "
Luiz Fernando Veríssimo
1a fase: Período clássico
GTI, como todas as cidades, já teve sua noite centrada em uma praça. A figura da praça como ponto de encontro (e confusão) é quase arquétipica: uma sorveteria em uma esquina, um bar em outra, uma (quase) mercearia que vende cerveja e gente, muita gente…p’ra ser sincero nem tanta gente assim: indo p’ra missa, saindo da missa, ficando na praça, esperando a próxima missa e arranjando matrimônio (as coisas não necessariamente nessa ordem).
Motos, fuscas, carros, carroças, circulam em torno da praça…de acordo com a moda ou a direção do vento, pessoas vão para lá com pipas, patins, skates ou cachorros (as pipas, os patins, os skates e os cachorros são motivos p’ra ficar na praça).
O crescimento das crianças também pode ser visto através dessa figura central: primeiro são levadas (e exibidas) e brincam nela (como os cachorros), depois dalgum tempo migram p’ra sorveteria e/ou p’ra dentro da igreja, muitos sorvetes depois estão uma esquina adiante: chegam ao boteco. Daí, se continuarem nessa cidade circular acabarão dormindo num banco da praça e serão elas mesmas praça (talvez aprendam a jogar dominó).
Esse foi o período clássico e, por isso mesmo, fundamental. Volta e meia lá estamos nós: na praça. Porém GTI evoluiu e as coisas se modernizaram um pouco.
Evolução e exclusão – Como é sabido, o Brasil é um país marcado pela desigualdade social: GTI não é diferente. A praça, em sua pureza inicial mantinha-se como ponto de encontro de todas as classes porém a "evolução" trouxe em seu bojo a "exclusão" social. Surgiram os clubes, que como as universidades durante o período militar, foram colocados longe do centro da cidade para, estrategicamente, peneirar seus visitantes. Surge o clube A e o clube B (leia-se para classe A e para classe B), com isso, a praça deixou de ser o "centro" que antes era, para se tornar como que "ponto de partida", em pouco tempo perderia esse "privilégio".
2a Fase: Circuito Oval
A marca do "segundo momento" são as universidades: uma Universidade Quase Municipal Particular e uma Universidade Quase Federal (sustentada pelo Município/Estado). A partir desses pontos de referência a sabia natureza construiu o Circuito Oval ou o Carrossel de GTI.
Como as duas universidades fica(va)m na mesma rua, a exatas duas quadras de distância uma da outra, sendo que, uma aparecia a direita e outra a esquerda, surgiram bares nas esquinas contrarias. Surgiram duas rotatórias (de tartarugas) entre uma e outra universidade, o que permitia com que os carros, as motos, os fuscas e as carroças girassem a noite inteira como num circuito oval ou como num carrossel.
Era cômodo sentar-se em um dos bares e ver toda a pequena burguesia circulando a noite inteira. As mesmas pessoas, os mesmo veículos, fazendo menos ou mais barulho de acordo com a hora da noite. No meio do caminho, como era previsível, surgiu uma sorveteria e alguma coisa de lanches rápidos. Ah, também apareceu um letreiro "Buate".
Houve, é claro, uma certa reação dos tradicionalistas: a Igreja não poderia perder o seu primado. Aí inventaram uma Igreja maior e chamaram-na Catedral, e lógico, numa praça maior. O subterfúgio deu certo por um tempo: de novo pipas, patins e skates na praça, etc., etc.,…o mesmo esquema. Porém, rapidamente (passada a euforia da novidade ) a praça foi absorvida pelo circuito oval e integrada a ele.

Crise e Profecia
O circuito oval foi "dissolvido" pela mudança do sentido das ruas de seu perímetro (que passaram a ser de mão-única). O "sistema" perdia, assim, um pouco de sua organicidade circular e entrava em crise.
Qual seria a saída?!?!?
Um cigano, um caixeiro-viajante trouxe a solução.

Em sua maleta novidades: dentaduras, diversos artigos made in Taiwan (ele criou o primeiro R$1, 99 de GTI) e a solução, ou melhor: o emplastro (que ele mesmo produzia e que era uma herança de família. Conta-se que seu bisavô havia recebido a formula de tal emplastro de um morto-escritor numa seção de cerveja) . Sabendo do problema, tomou uma colher do emplastro e com voz de morto-vivo pronunciou: "GTI é uma cidade turística".
Depois dalgum tempo desvendou a lógica inegável da sua iluminação: se ele Melquíades, famoso caixeiro-viajante cigano, entre um trieiro e outro resolvera tomar pousada alí, naquela localidade, logicamente essa cidade só poderia ter algo de especial. Na hora não conseguiu desvendar esse "algo especial", porém com a ajuda de um bêbado irônico (que considerou um "pajé das realidades múltiplas") aprendeu as potencialidades turísticas da cidade.
Muita gente veio então…comprar ações do Clube de Águas Termais Do cigano Melquíades: o maior empreendimento do século em GTI. O negócio era quente, as ações eram quentes (eram vendidas rapidamente), porém, contudo, entretanto, outrossim: a água era fria.
Melquíades numa manhã de primavera, em sua essência fria e bela, viu GTI pela janela, pegou sua bolsa amarela, (pensando em chuva levou sua umbrela) e sem esperar a rima: picou à mula. (Dizem que deixou uns manuscritos numa língua estranha, falam que era Desesperanto…ninguém nunca os leu…acho).
Deixou, porém, um pscinão de plástico e um grande abelhão inflável. No outro dia, a população ficou tão entretida enchendo o abelhão no sopro e o pscinão através de uma cadeia de baldes que não percebeu a fuga do cigano.
¡Oh! ¿E agora quem poderá nos defender ?
Deixada como herança a idéia de Melquíades foi retomada pelo Imperador (todas as cidades imaginárias são governadas por reis/tiranos: seja por herança patriarcal (porque muitos precisam de alguém que ainda seja o pode) , ou até mesmo porque sustentar a democracia em devaneios é muita falta de imaginação).
O Imperador de início apelou aos deuses para atrair turistas: construiu uma grande estátua de Zeus no morro mais alto da cidade. uma cópia da estátua feita por Fídias. Como, logicamente, o rei era parcimonioso, a sua estátua era bem menor que a original, não era de ouro e comprada de segunda mão (o que mostra a originalidade do empreendimento).
Na época da construção a euforia era tanta que um conselheiro do imperador chegou a sugerir que também na cidade fosse construída uma Estátua da Liberdade, uma Torre Eiffel…hipóteses que foram rapidamente descartadas pelo imperador (a única que ele ficou de examinar era a de construir uma pirâmide, mas depois descobriu que estava fora de moda).
Na época da inauguração da estátua de Zeus o rei importou do Rio de Janeiro o primeiro turista. Esse disse "Wonderfull!!…Agora só falta a Baía de Guanabara!".
Aquelas palavras repercutiram profundamente no espírito do Imperador. Como que iluminado por elas pensava em como torna-las reais. Não, ele não cogitou canalizar o mar: a palavra da vez (inventada por ele mesmo) era laguificação.
Disse o Imperador lago e o lago se fez. Viu que o lago era "bom" então fez outro lago…e outro…e…
((talvez ) continua…)





